Amor sincero

Não era uma ‘pessoa viajada’, não tinha passaporte, mal conhecia meu próprio estado, mas ela, ela podia apresentar tanto do mundo à qualquer um sem sair do lugar. Bastava começar uma de suas histórias, uma de suas ‘boas lembranças’ sobre o mundo, sobre as viagens que fazia entre uma página e outra deitada no quarto ou esparramada na sala.

Eu ficava simplesmente impressionado, quieto e calado assistindo ao espetáculo dela. Vê-la sorrir e ajeitar os cabelos, combinar a entonação às feições e gestos era encantador.

Quando eu precisei sair do país – de verdade, com passaporte e tudo agora – a trabalho, ela chorou como nunca havia chorado e eu quase não acreditei que era capaz ou merecedor das lágrimas e principalmente, da dor daquele coração tão grandioso e generoso, simpático e ingênuo. Uma legítima contadora de histórias e encantadora de garotos que fora capaz de me transformar em um homem estava aos prantos pela minha partida.

Controlando-se, ela entregou-me um envelope preto.

urban.wornDesejou-me boa viagem, pediu para que ligasse, escrevesse e fizesse contato diariamente “ou terei que deixar tudo para ir atrás de você!” Garanti que não nos afastaríamos além do necessário e ela entendeu, como só ela podia.

Seriam tantos quilômetros entre nós que eu preferia não saber a distância real, o importante é que nossas almas permaneceriam juntas.

Como ela pediu, abri o envelope preto só quando a saudade fosse algo insuportável e a falta dela parecesse algo palpável, enlouquecedor. Eu mal suportava a falta da presença dela no meu peito todas as noites e abri o envelope antes de ir dormir.

Ela me fez rir a noite inteira.

Acordei na manhã seguinte com a alegria e bem estar de quem havia amado loucamente a noite toda.

Lembrei-me que nunca precisamos do que outras pessoas diziam que todo casal precisa: precisar sentir saudades, precisa aquecer o relacionamento, precisa inovar na vida a dois; bem, tudo isso sempre foi normal para nós. Ela dizia sorrindo, sempre longe das amigas que quando era real, era sincero, era amor e o amor não precisava de nada o que não significava que ele se bastava.

O amor verdadeiro não precisa de nada, nós precisamos. E quando nos relacionamos com outra pessoa precisamos mais de nós mesmos, precisamos do outro, precisamos de tudo: queremos tudo e nos esquecemos que precisamos dar para receber. Por isso o amor só permanece onde há reciprocidade. Foi o que ela me disse quando contei a ela que passaria três meses fora do país.

“Independente de onde estiver ou como nós estivermos, se houver reciprocidade em nossas ações, nosso sentimento permanecerá e nossas almas não se afastarão.”

Nossas melhores lembranças, era isso que ela havia escrito na carta. E abraçando-a no aeroporto, simplesmente agradeci: por tê-la em minha vida, por sua existência e pelo amor.

Pelo amor que há no mundo, pelo amor que nos uniu e pelo amor existe por aí, unindo mais gente, transformando garotas e garotos em mulheres e homens grandiosos.

2 comentários

  1. Waldemar says: Responder

    Lindo demais, filha minha.

    1. Obrigada pai! Obrigada pelo apoio de sempre por aqui 🙂

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