Uma viagem (Ive, IX)

Leia a primeira parte dessa história aqui.

Por mais estranho que fosse para mim, ela não tocou no assunto. Ela forçou o sorriso de sempre e falou de planos para uma viagem. Meus pais iriam viajar. Minha mãe iria sair de casa. Minha mãe iria sair de perto dela. Eu não sabia nem como fechar a boca.

Meu pai sorriu timidamente e disse que eles estavam completando sei lá quantos anos de casamento e ele acho que era um bom presente e continuou tagarelando mas meus olhos arregalados mudavam dele para ela enquanto eu respirava de maneira desesperada. Ele me deu um tapinha de leve me levando à realidade e dizendo que eu iria ficar bem. Todos me diziam aquilo. Desde os meus dez anos de idade.

Um cruzeiro. Aniversário de casamento. Presente do meu pai.

Minha mãe ia viajar.

Minha mãe mal ia no meu apartamento! Ela deixou o emprego, não é ousadia minha dizer que ela deixou a vida porque por um bom tempo quem comprava roupas para ela era minha tia e depois ela ia com a minha tia, só ao mercado ela nunca deixou de ir. E ao cemitério. E agora ia viajar.

Ok, meu pai também ia.

Espera. Meu pai também ia. E eu não.

Tudo bem, eu vivia por aí desde os meus doze anos, quando fui estudar fora, mas claro que era algo completamente diferente.  Eles têm uma filha morta, mas eu ainda estou viva! Não? E também sou adulta e posso lidar muito bem com isso porque nós nem moramos juntos.

Mas poxa vida… viajar assim. De repente!?  Eu faço isso nas férias, mas… são férias.

Eu sempre pude contar com ele em todas, ou quase todas as situações e agora ele ia viajar.

Ok, isso era bom para eles, eu acho. Na verdade ainda não havia entendido como meu pai conseguiu convencer minha mãe a fazer essa viagem. Uma viagem internacional. Um cruzeiro.

Voltei para casa e me afundei na cama tentando entender tudo o que acontecera. E tentando perceber onde eu estaria em tudo o que estava por vir. Minha mãe pediu para que eu ficasse na casa dos meus pais enquanto eles viajavam, mas meu pai disse que se eu pudesse ao menos passar por lá mais vezes por causa das plantas e mais blábláblá. Me contaram sobre o roteiro e fizeram perguntas sobre as cidades, idiomas, temperaturas e lugares que deveriam conhecer; infelizmente eu estava chocada demais para compartilhar tudo o que eu sabia com eles então fiz o melhor que podia, mas com aquela sensação de que não era o meu melhor.

Dias depois eu estava no shopping ajudando minha mãe com suas compras pela primeira vez em uma vida eu acho. Ajudei meu pai na casa de câmbio, expliquei detalhadamente sobre os documentos e respondi as perguntas sobre passaporte e vistos e ri com as ideias deles sobre os pontos turísticos. Consegui dar dicas valiosas que você conquista morando em outros países e convivendo com as pessoas comuns.

Minha mãe estava empolgada e realmente feliz com a viagem e eu impressionada. Então decidi atender ao pedido dela e juntei algumas coisas e fui passar o mês em casa, fechei o apartamento e avisei no trabalho que estaria na casa dos meus pais, assim todos os manuscritos seriam enviados para lá – ou você achava que eu ficava carregando caixas de papel por aí?

O quarto que um dia pertenceu à Izabel, agora era o escritório da casa, mas com paredes rosa claro. Lá deixei minhas caixas e papeis e o notebook com meu calendário levemente fixado na parede.

Meu quarto era meu, e muito parecido com o meu quarto no meu apartamento no centro, mas minha mãe insistia que meu computador não ficasse lá porque eu nunca dormia, ela sempre via aquela luz passando debaixo da porta.

Pela primeira vez eu dirigi para me despedir deles, ajudei com as malas, perguntei sobre documentos e dinheiro, e pedi que eles se cuidassem. Minha mãe sorriu – feliz – e me beijou na testa e disse que ficaria bem e eu também deveria. Ela levantou a alça da mala, estranhamente era como eu fazia, andou sorrindo como se dançasse por dentro confiante. Meu pai aproximou-se e me abraçou, disse que não estaria comigo para sempre, mas eu já sabia me cuidar então eu deveria me cuidar como se fosse ele. Meu coração pareceu apertar. Nunca me despedia dele assim, ele sempre estava lá me esperando e agora não.

Entre lágrimas disse para ele se divertir e senti que ele merecia muito, muito mais que eu essa viagem, muito mais que qualquer viagem que eu tivesse feito.

Não gosto de despedidas então voltei pro carro e fui para casa. A casa dos meus pais: eu nunca me acostumei a chamá-la assim, como ainda tinha dificuldade de chamar meu apartamento de casa. Não no sentido de qual construção falamos mas de lar, sempre vi a palavra casa como lar. E meu lar estava vazio. Parecia que alguém havia recriado minha casa em uma exposição de decoração sabe? Os móveis, os utensílios, as cores, tudo igual, mas não era a minha casa porque faltavam as pessoas. Desde que perdemos Izabel minha casa era menos casa. Por isso eu iniciei uma vida de viagens e quando eu não podia simplesmente viajar eu lia loucamente para buscar outras histórias. Sem meus pais, a casa ficou completamente estranha para mim, mas eu tinha que encarar e cuidar de mim como se fosse meu pai. Foi o que ele pediu.

Então fui para a cozinha. Algo raríssimo.

Mas então meu celular tocou e depois de uma busca pelo submundo da minha bolsa encontrei e era João (o escritor recluso) e eu tentei agir com a maior naturalidade possível. Só que nada estava normal ou natural nos últimos dias e ele insistia com sua voz baixa e desanimada que eu o encontrasse para jantar. Nada estava normal mesmo.

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