O fim sempre vem (Ive, VIII)

Leia a primeira parte dessa história aqui.

Minha irmã mais velha cometeu suicídio. O nome dela era Izabel e ela tinha treze anos, eu dez.

Eu não faço ideia do porquê nossos nomes são com a letra i, tanto quanto ninguém faz ideia do porquê ela fez isso. Nós tínhamos passado o dia em um parque brincando e fizemos um piquenique e estávamos cansados e eu nem me lembro de ter dormido, mas lembro que enquanto sonhava ainda sentia minhas pernas pedalando como havia feito o dia todo.

Ela tomou remédios que não sabemos como ela conseguiu. Acredito que eram os remédios da minha avó, mas eu era pequena demais para falar disso. E bastava só ter uma irmã internada em coma para mim. Ela não voltou do coma, nem voltou para casa. Meses depois toda a família estava aqui e meu pai estava conversando comigo dizendo que minha irmã tinha falecido.

Eu sabia o que era coma. Eu sabia o que era morte. Eu lia. Eu era uma criança, o que não significa que eu vivesse em um mundo à parte do da minha mãe. Meu pai respondeu todas às minhas perguntas e me contou tudo o que sabia, tudo o que entendia. E no dia seguinte ao enterro, me levou ao hospital para conversar com o médico que cuidou da Izabel.

Ele nunca foi super protetor. E eu me lembro que ele me disse enquanto eu me ajeitava no carro: “Eu queria muito que vocês duas crescessem juntas e cuidassem uma da outra, mas sua irmã agora vai cuidar de você sem que você a veja. O que eu puder fazer para ensiná-la a cuidar-se, farei, porque eu não vou durar para sempre, tudo bem?” Eu sorri e agradeci. Quis muito que Izabel tivesse ao menos nos dado a chance de uma despedida, um entendimento, alguma coisa.

Ela nunca mudou de comportamento e ninguém, ninguém entendia o que havia acontecido. Houve até a suspeita de homicídio, o que só piorou a nossa situação.

Nós éramos muito próximas, e ela sempre teve mais facilidade com minha mãe e isso parece ter a perturbado ainda mais, além do fato dela ter encontrado minha irmã já inconsciente. Não sei o quanto ela se culpa pelo que houve.

Naquela noite, jantamos no mesmo silêncio das primeiras noites depois do enterro. A morte da minha irmã causou a morte da minha mãe: da mulher que ela era, da mãe que havia nela, o que restou era a casca. E o casamento dos meus pais foi realmente muito forte para resistir à tudo. Eu e minha mãe passamos a nos desentender com maior frequência enquanto eu e meu pai ficávamos mais próximos. E como eu a havia perdido, o que me restava era ler. E eu lia durante todo meu tempo livre, estudava muito e tentava entender o que tinha acontecido. Li livros de psicologia, espiritismo, tudo, tentando buscar algum sentido para aquilo. Nada aconteceu. Nada mudou. Nada podia trazê-la de volta.

Eu não conseguia entender porquê eu não pude salvá-la.

1 comentário

  1. Obrigada jeh *—* de verdade <3
    menina que texto mais intenso, mais cheio de emoção, continue escrevendo…
    ajuda com tudo!

    beijos <3

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