O jantar (Ive, X)

Leia a primeira parte dessa história aqui.

Meus pais viajando em um cruzeiro internacional;

Eu, instalada na casa deles durante esse período;

João, o Recluso, me convidando para jantar.

A lista de coisas anormais estava incrivelmente extensa, acho que eu nunca tinha alcançado tamanha loucura em tão pouco tempo! Ah, talvez eu tenha esquecido de mencionar que eu cozinhei – e deu certo! Então realmente alguma coisa estava muito, muito, muito errada.

Liguei para Annie, minha amiga professora de yoga e perguntei à ela se eu poderia ter feito algo muito errado e tirado meus chacras do lugar. Depois de muito tempo rindo ela disse que não, que estava tudo bem comigo e que algumas mudanças acontecem quando temos um tempo para nós, nos permitimos um auto conhecimento. E disse que retornaria ao hotel onde estivemos em alguns meses se eu quisesse ‘colocar meus chacras no lugar’.

À noite passei no meu apartamento para pegar roupa, afinal eu não ia sair para jantar com ninguém no período na casa dos meus pais. Então resolvi levar mais coisas e voltei pra lá para me arrumar. No quarto encontrei uma caixinha antiga com bijuterias que eu herdei da Izabel. Havia um colar dela que eu amava e eu decidi usá-lo, era um colar em prata esterlina com um pequeno pingente de flor rosa tão delicado quanto ela era. E combinava bem com meu vestido preto leve e meu kimono estampado e chinelos. Ok, ela não usaria isso, mas ela não conheceu a moda como eu e também não conhecia o estranho do João. Lembrando disso troquei meus chinelos por botas leves. Sabe-se lá onde iríamos jantar, sei lá porque íamos jantar! Ele não pode ter entendido… Meu Deus, sim ele pode. Que vontade de sumir. Bom pensando bem, eu sumi: ele não tem meu endereço e se eu desligar meu celular vou sumir mesmo porque ele não faz a menor ideia de onde moro imagina meus pais?! A Editora já fechou ele não tem outros contatos lá.

Mas meu pai me ensinou a ser mais homem do que muito homem e o pior, ele não me ensinou a ser cafajeste, mas cavalheiro.

Eu precisava ir e deixar tudo bem claro, não poderia brincar com os sentimentos dele muito menos permitir que ele ficasse iludido, até porque ainda temos uma relação profissional, o que claro poderia terminar com alguns telefonemas e outra editora ou editor assumindo os textos dele. Mas eu não poderia ser desonesta com ele. Eu não conseguiria conviver com isso, mesmo que isso significasse quebrar o coração dele. Meu pai me ensinou sem saber, ao me contar a verdade e exatamente tudo sobre a morte da minha irmã que as verdades duras são muitíssimo melhores do que mentiras satisfatórias. Talvez as mentiras ou palavras vazias da minha mãe a respeito do que estava acontecendo tenham nos afastado enquanto a verdade permitiu que meu pai e eu entrássemos em sintonia.

Bom, eu encarei o médico um dia após o enterro porque queria respostas e agora vou encarar o estranho recluso para dar respostas à ele também.

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