Vodka (Ive, XI)

Leia a primeira parte dessa história aqui.

Noite de sexta-feira e lá estava eu seguindo para um jantar em um restaurante italiano no centro, pelo menos fora uma boa opção porque eu nunca gostei da tal comida japonesa, infelizmente não é para mim e parece que não dou sorte de conhecer muitos que gostem de pratos indianos. Ok, menos devaneios e mais foco. O que é que eu ia fazer lá? Sei lá! Tá, mentira! Eu sei o que ia fazer lá, ia conversar com o João – o Recluso, e desfazer esse bendito mal entendido.

Admito que fui surpreendida pelo bom gosto para a escolha do local, era realmente interessante e ele nem saía de casa! Só que ainda era ele, e ele não estaria em um belo traje me esperando em uma das mesas adornadas por velas, estava na porta do restaurante me esperando como faziam meus ficantes anos atrás. Ele não estava mal vestido, e não deixava de ser ele.

Cumprimentei ele e fomos para a mesa reservada: pela mãe dele.

Eu não estava representando a Editora então pude questionar assim que ficamos à sós na mesa porque ela havia feito a reserva. E aí, tudo ficou ainda mais estranho.

João estava visivelmente sem jeito e eu estava realmente incomodada e preparava-me para explicar de cara para ele que eu havia bebido e blá, blá, blá! Então ele tomou um gole d’água e soltou tudo de uma vez: a mãe dele estava no apartamento que ele usa para escrever no dia em que eu mandei os ‘presentes’ para ele e disse que seria imprescindível que ele esclarecesse a relação profissional que tivemos – sim, no passado, porque ela havia entrado em contato com a Editora e solicitado um novo profissional para a orientação dele e ele concordou.

Só pude ficar ali de boca aberta.

Ele disse que estava tudo bem sobre as questões do livro, não havia guardado mágoa dos meus conselhos e compreendia meu trabalho e que não queria confundir meus sentimentos.

Ainda estava boquiaberta imaginando o que a mãe dele disse para minha chefe na Editora quando ele disse sobre meus sentimentos, mas ouvi o suficiente para rir. E foi uma bela gargalhada.

Sério, as vezes nos acostumamos tanto com o controle e a previsibilidade das coisas, da vida mesmo que quando tudo dá errado nesse ponto, assim, tipo naquele restaurante eu me sentia sozinha no mundo, mais do que perdida e não havia meu pai por perto para me orientar.

Disse a ele o que realmente aconteceu e percebi que ele voltava a se parecer mais com o João – o Recluso, era como se eu voltasse ao ‘comando’ na mesa, mas isso não tinha a menor importância, precisava saber do meu trabalho e ele disse que foi à Editora e disse que estava envolvido comigo, por isso não continuaria a trabalhar com minha consultoria e assistência. E eu fiquei boquiaberta de novo.

Repeti para ele o que aconteceu e que não tinha a menor intenção de confundir os sentimentos da mãe dele. Sorri para ele e deixei sobre a mesa algumas notas para pagar pela vodka que nem havia chegado, tinha uma garrafa em casa.

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