Mudanças (Ive, XII)

A mudança parece uma pecinha de dominó: ela não consegue vir sozinha, inicia uma sequência.

Meu trabalho mudou, meus pais mudaram, meu apartamento mudou. O que eu podia fazer?! Tudo estava diferente e de repente eu pensava: “se eu não tivesse bebido a bendita vodka, tudo ainda seria daquele jeito”.

Depois que eu enviei minhas desculpas para o “recluso”, ou melhor, para a mãe dele que entendeu que eu o amava desesperadamente, eu estava com um milhão de escritoras. Misteriosamente eu recebia apenas manuscritos de mulheres.

Desde minha viagem de férias em fuga e a surpreendente viagem dos meus pais eles haviam mudado: não haviam mais jantares nas noites de sábado ou ligações com pedidos de visitas durante a semana, apenas os almoços de domingo que agora tinham mais convidados e, os dois muito mais assunto. Isso não era ruim, mas diferente, o ruim era perder meu pai de vez. Eu já não tinha uma relação muito próxima da minha mãe, então não conversar tanto com meu pai fazia muita diferença.

Passar  um tempo na casa dos meus pais mudou até as coisas no meu apartamento, tudo bem, não meu apartamento, mas quando voltei para lá havia dois apartamentos vazios e uns dias depois ouvi o delicioso som de uma mudança, o que na verdade é ótimo para que gosta do silêncio para trabalhar. Bom, eu mal conhecia meus vizinhos antigos, não frequentava reuniões até porque tudo aqui sempre foi super tranquilo e a síndica e dona do edifício está sempre de olho em tudo e é uma pessoa muito preocupada com o produto que nos ofereceu, então nunca achei qualquer valor injusto ou o lugar em que vivo inseguro. Até agora. O antigo vizinho no fim do corredor era contador, e foi indicado pela síndica quando me mudei e me auxiliou no começo com as papeladas de imposto até que eu entendesse como funcionava, na verdade ele e o escritório dele. E ele parecia trabalhar em casa também porque era bastante silencioso, mas dava para perceber as luzes. O novo morador não. O cara cantava. Na primeira noite ele resolveu montar o apartamento, dá para entender uma pessoa que canta e bate pregos nas paredes à noite?! Eu tinha separados maravilhosos manuscritos de romances infanto-juvenis dedicados ao público feminino àquela noite e desmarcado uma saída com minhas amigas, afinal, se eu ficasse bêbada meu pai não podia ir me buscar porque ele e minha mãe iam para um baile.

O que foi que aconteceu?! O mundo me superou? Eu deixei de existir? Eu fiquei para trás? As pessoas perceberam que talvez eu não tenha assim tanta importância e evoluíram enquanto eu fiquei estagnada aqui?

Era inexplicável. E impossível trabalhar. E sinceramente, aquilo ali não era meu trabalho. Guardei os manuscritos, me sentia incapaz de gerar uma opinião tão importante sobre um trabalho de uma vida talvez sem o menor interesse por esse tipo literário e sem conhecimentos também. Eu não estava preparada para aquilo. Tirei o pijama e peguei minhas chaves, eu precisava fazer muitas coisas.

Encontrei a casa dos meus pais vazia e o mais surpreendente: caixas de comida na cozinha: minha mãe sempre fazia questão de cozinhar. Ok, estava diante de uma nova versão dela. Talvez algo mais próximo de quem ela foi antes de mim. Peguei as caixas na garagem e fui para o escritório cor de rosa. Retirei do escritório tudo que era meu e deixei que o cômodo voltasse a ser só o quarto de Izabel, reconhecível só pelas quatro canecas que eu trouxe e pelas paredes cor de rosa. Levei as caixas até o carro e voltei para pegar as coisas importantes que eu tinha no meu quarto. Havia passado do tempo de deixá-los. E passado muito do tempo. Fui para a garagem e peguei minha caixa de ferramentas, coloquei no banco do carona e voltei para o apartamento. Subi com tudo e senti que  talvez fosse precisar de um apartamento maior ou então de uma casa de verdade e não de um esconderijo no centro da cidade. Eu estava finalmente saindo de casa de verdade. Éramos eu, caixas e mais caixas além de dores e mais dores em um pequeno elevador em direção à um corredor iluminado e sob um canto desafinado do novo e contente morador.

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