Memórias de Dalila

Problemas, era o que ela via quando olhava em volta. Com seus dezoito anos completos, Dalila sentia-se estranhamente livre, só por ser maior de idade, e ao mesmo tempo, acreditava que isso era só uma idiotice, que ela não era nada livre, não tinha nem seu próprio dinheiro ainda. Ainda, porque ela pretendia trabalhar para tê-lo em breve, mas não tinha, então não era livre. Presa ali, com os problemas familiares, o namorado tão ausente, as amigas preocupadas com as próprias vidas, com os namorados, com os vestibulares, sentia-se cada vez mais só, abandonada, deixada. Não tinha uma vida ruim, não era mal tratada, mas sempre achou merecer mais, não devia ficar ali, assistindo a própria depressão, a própria queda, ela tinha que se ajudar, já que ninguém notava, já que ninguém fazia. Dalila acabou percebendo que precisava de uma atitude, de uma radicaliza, imediata.
As brigas dos pais, as separações, as confusões, o fim do colégio, o começo de uma vida que não era como ela queria, o sonho da faculdade fraquejando, tudo, se esvaindo.
Colocou todas as músicas no mp4, a câmera na mochila, o dinheiro todo também. O jeans favorito, um moletom, umas camisetas, um chinelo, tudo pra mochila também. Trocou o pijama de flanela pelo vestido de bolinhas coloridas, um tecido sutil, e nos pés, um all star surrado. Ajeitou os cabelos, colocou um pouco de coragem na cara, prendeu a saudade no fundo do coração, um livro nas mãos, e todo o positivismo que ela conseguia na cabeça.
Saiu, disse adeus a mãe, num simples tchau, um abraço apertado, os olhos embaçados, o mesmo para o pai e saiu dizendo que ia dormir na casa da melhor amiga. Tomou um ônibus, parou na roleta e pensou no que fazia, mas sabia que não podia desistir, e que isso não seria para sempre e que era o melhor para ela, e esperou do fundo do coração que fosse o melhor para todos.
Desceu na rodoviária, pegou mais um ônibus, e foi vê-lo.
Nos ouvidos, as músicas lentas que a faziam chorar e a embalavam em um cochilo leve, passou e repassou as palavras para ele, pois sabiam que estas seriam únicas, últimas. Ela poderia vê-lo novamente, mas nunca na mesma situação, e ele não pararia a vida para esperar que ela se encontrasse. Chegou a cidade dele, uma cidade pequena como a dele, mas que a deixava em paz por ela não ter obrigações com ninguém ali. Foi caminhando até a casa dele, se preparando, para um tipo de coisa que nunca pode se dizer que está pronto.
O vestido ia dançando com o vento, tocando sutilmente sua pele, os cabelos se afastavam, e se aproximavam, feito passo de valsa, mesmo não estando em um bom momento, Dalila se sentia bem, sabia que apesar de tudo, fazia aquilo que acreditava ser o melhor, e nada nos completa mais do que fazer aquilo no que acreditamos, as vezes, é melhor que fazer o certo.
Na porta dele, tocou a campainha, e tensa, perdia em si as palavras e tudo mais. Ele veio, distraído, e ficou surpreso ao vê-la ali, inesperada.
– Dalila.
Ele parou tentando encontrar uma razão para ela estar ali, tão repentinamente.
– Precisava falar com você, preciso, falar com você.
Ele a abraçou, sabia que tudo o que estava acontecendo, estava sendo difícil para ela, ainda mais com ele distante. Ele tinha passado em uma faculdade em outra cidade, se mudou, e parece que com ele, o amor se mudou da vida dos dois, e a relação ia morrendo, ele ia deixando de ir vê-la e um cada vez mais desconfortável com o outro.
Mesmo que o amor estivesse morrendo, nos braços dele ela se sentia segura de novo, e as lágrimas vieram, fortes como no caminho, mas ela as reteve ali.
– Eu só vim lhe dizer, que pra nós acabou. Acabou a muito mais tempo e você sabe disso, não quero que sofra, não quero sofrer. Quero que você seja feliz, de verdade, espero te ver um dia, completo, como nós já fomos, que você tenha toda sorte e que faça alguém feliz, como me fez, e que a deixe segura, como eu fico assim nos teus braços. Sinto muito por tudo de ruim que existiu, e por qualquer magoa que eu possa deixar. Estou indo embora, e quero que você fique bem, porque é isso que eu estou buscando, ficar bem. – ela se soltou dos braços dele. – Obrigado por tudo, cada momento, bom e ruim que me fez crescer, que me fez feliz. E boa sorte daqui pra frente. – Dalila se virou, e foi. Sem olhar pra trás, e ele não teve forças nem ao menos de gritar seu nome, ficou ali, estático, vendo-a se afastar.
Na volta, correu, tentando assim deixar os problemas pra trás, com as lágrimas que não a deixavam ver nada, os cabelos no vento, o rosto molhado, o vestido voando. Começou a se acalmar, se recompor, ver que estava bem, que estava certa.
De volta a rodoviária, agora sim, livre. Nos fones, algo mais animado, o all star surrado batendo ritmado no chão, outra passagem e mais uma viagem, mas agora para algo grande, desconhecido, inesperado. Indo pra capital, apostando tudo nela mesma, em suas loucuras, deixando-se levar pelas vontades. Era difícil porque não dava pra bloquear da mente as tristezas, os bons momentos, e as saudades que já começavam a pulsar. Mas ela sabia que podia controlar, administrar os sentimentos e espantar a lucidez. Sentir o sorriso no rosto era a felicidade ali, comprovada. Dalila precisava sair dali, crescer, se virar, se preocupar e se chatear sim, mas com a própria vida.
“Daqui pra frente, eu vou fazer história”
E com esse pensamento se baseou pra sua nova vida, pegou o ônibus, e foi, pra capital.

6 comentários

  1. *-*
    e você tem que ver o tanto de gente que ainda tem aqui, rs.
    beijo, beijo!

  2. Obg *-*
    beijo, beijo

  3. Com certeza 🙂
    beijo, beijo!

  4. E como já era de se esperar um lindo conto , Dalila grande personagem ;D

  5. Olá
    Gostei do conto, bastante!
    Parabéns.
    Beijos

    cocacolaecupcake.blogspot.com.br

  6. Bem corajosa essa Dalila, não é fácil deixar certas coisas para trás e tomar um caminho novo que você nem sabe se vai dar certo. Mas como diz o ditado, quem não arrisca, não petisca. rs

    Beijos

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