Por que tanta coisa? (Ive, XIII)

Nós nos conhecemos, odiamos e apaixonamos. Eu nunca vou saber explicar bem a sequência desses acontecimentos: sei apenas que em um momento eu o ouvia cantar distante do meu quarto e depois ele estava cantando no meu chuveiro ou batendo à minha porta.O que foi que aconteceu?

Mulheres, eu tinha mulheres demais de uma sexta para uma segunda. De repente eu fiquei carente.

Acho que só assim posso explicar. Eu não me envolvia com os escritores da Editora, isso nunca aconteceu e o único que despertou em mim algum interesse, fiz questão de ‘trocar’ com outro colega de profissão, justamente para evitar a tentação da proximidade. Eu sabia a importância da imparcialidade e mais, da sinceridade e profissionalismo na minha atividade e não brincava em serviço, mas estar cercada por mulheres e assuntos de mulher mexeu comigo de algum jeito, afinal, antes eu me produzia para estar bonita e profissional frente à um cara, agora, eu encontrava com mulheres nas suas salas e jardins para tomar um chá. Não havia mais a necessidade de encontros fora de casa, porque eram apenas escritoras e de repente percebi que meu visual ficava cada dia mais desleixado em meio à escritoras e livros românticos ou sedutores. E percebi também o machismo que estava enrustido em meio à minha ideia de profissionalismo.

Se não fosse por isso nós teríamos nos envolvido?

Meus pais já não se importavam tanto com o quanto eu ia pra casa, e agora já nomeavam meu apartamento como a “minha casa”. Isso era impressionante. De repente eu era adulta para eles, assim, do nada, e me restaram apenas os almoços dominicais. Na verdade eles queriam que eu me envolvesse com alguém, queriam ir ao meu apartamento, queriam dicas de lugares pelos quais eu viajei.

Bem, sim, se a minha vida não tivesse dado uma virada tão violenta, nós não teríamos nos envolvido. Eu não teria ido até a casa dele para reclamar da cantoria tarde da noite porque conseguiria ler bem um livro que não me causasse inveja de uma menina de quinze anos por ter um cara melhor – mais idealizado – do que os que eu já havia conhecido. Eu provavelmente teria passado mais tempo na casa dos meus pais para ler já que ele não permitia que eu trabalhasse em casa.

E isso não teria começado.

E as brigas também não.

E nada disso. Muito menos um violão na minha sala de estar, roupas dele espalhadas na cadeira do meu quarto. Bom essa parte na verdade, não existiria se eu não estivesse completamente apaixonada por ele.

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