Sentimentalismo

– Você se apaixona fácil?

Eu sabia que não estava mais gravando as respostas dele, havia acabado de desativar o modo gravador do celular, mas continuava segurando-o na mesma posição e ele me olhou estranhando logicamente a pergunta e depois olhou para meu celular.

– Posso não gravar se preferir, fica melhor assim? – disse descruzando as pernas e erguendo o celular, já obviamente procurando minha bolsa no encosto da cadeira. Mas ele tocou meu joelho tão levemente que uma pessoa normal mal perceberia, só que eu não era apenas “a jornalista”ali, me corpo tremeu todo e de repente fazia trinta graus dentro da minha roupa.

– Tudo bem, é uma pergunta diferente… Vamos lá. – O toque dele foi extremamente leve e rápido. A mesma mão voltou logo e ajeitou o cabelo com um sorriso que acompanhava os pensamentos sobre as paixões da vida. – Não tive muitas paixões, tive um amor no mundo que me foi suficiente.

Eu deveria realmente ter aceitado um trabalho na TV da universidade e optado por levar tudo para minhas mídias em vídeo, se eu pudesse filmar aquele momento, e eu o teria assistido para a eternidade: eu estava sentada frente a frente, próxima como nunca do homem da minha vida e eu sabia que jamais poderia estar com ele.

– Uma resposta bastante apropriada. Bem, vamos encerrar então, existe mais alguma coisa que ainda não sabíamos sobre você?

– Eu nunca me arrependi do caminho que trilhei.

E aquilo era o que ele sempre deixara claro. E assim meus ossos se enfraqueciam cada dia mais.

Acredito que sorri e guardei o celular na bolsa. Levantei e o cumprimentei com um aperto de mão (odeio apertos de mão).

– Obrigada pela entrevista e pelo seu tempo. – Queria realmente demonstrar a gratidão por ter sido recebida por ele e por uma entrevista tão aberta.

– Particularmente, não nego, não consigo me acostumar a isso. Sempre será estranho responder para as pessoas sobre as coisas simples da minha vida sabe? Mas ao mesmo tempo é estranhamente bom imaginar que preciso dar o meu melhor não só por mim mesmo e pelas coisas que acredito, mas também porque existe alguém lá fora que me considera um exemplo ou que posso ajudar através da imagem que tenho.

Comecei a me dirigir para a saída da sala onde estávamos e ele me seguia, de alguma forma, o fim de tudo aquilo estava errado, na minha mente eu havia pensado que sairia de lá deixando-o confuso, mas na verdade eu estava saindo de lá pior do que havia entrado. E pensava que talvez fosse melhor não ter ido. Já estava absorta em meus pensamentos e tentando controlar meu coração quando a secretária surgiu para me acompanhar até a saída. Não existia necessidade daquilo, sorri para ela e continuei caminhando, eu não tinha muita força para falar qualquer coisa então deixei pra lá. Sabe quando de repente tudo fica pesado demais? Difícil demais? E difícil de enfrentar e entender porquê é interno.

Não percebi o que estava fazendo até ouvi-lo repetir “Tchau, vá em paz, fique com Deus.” Olhei para trás e vi que ele estava me ‘acompanhando’ até a saída e eu não dei atenção – literalmente não ouvi uma palavra do que ele disse – e lá estava ele, sorrindo para mim e quebrando o que restava no meu peito e eu costumava chamar de coração. E a culpa que eu sentia por amá-lo dissolvia o restante de mim. Agradeci novamente e disse que em breve enviaria a matéria na íntegra para avaliação dele e da equipe, antes da publicação – eu estava desenvolvendo esse trabalho por conta própria então tinha tempo até convencer minha equipe da publicação e podia permitir a eles a prévia. Fui para o carro, me permiti chorar e ouvir música até conseguir me acalmar antes de entrar em casa e encontrar minha mãe que me esperava. Queria muito morar sozinha em momentos assim para dormir e deixar tudo pra lá, ou pensar em toda a dor que eu carregava no peito, mas essa não era minha realidade. Daí fazia o possível para encarar o que havia pela frente.

Só a gente sabe o que sente quando não deveria sentir nada e como se sente quando quer sentir e o sentimento falta, não existe mais. O mundo inteiro vai me julgar quando souber, todo mundo vai acreditar saber como eu me sinto e a verdade sobre tudo – talvez eu também pensasse assim – é que muita coisa nós precisamos ver, viver para saber. 

Eu não deveria estar escrevendo sobre mim e sim transcrevendo uma entrevista. Era a hora de voltar a fingir pra mim e pro resto do mundo, eu precisava de novo colocá-lo em um canto vazio e escuro da mente para que pudesse pensar e trabalhar. Para que pudesse viver.

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