#SetembroAmarelo: Como é para mim?

Antes de ler saiba que, escrevo sobre a minha experiência com a Depressão. Compartilho minha vivência para ajudar outras pessoas a compreender e lidar melhor com a Depressão, portanto, nada aqui é simplesmente aplicável a outros casos da doença ou uma fórmula mágica. Todo indivíduo é único e seus sentimentos também.

Setembro Amarelo 💛 é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção.

Esse mês vivi muita coisa diferente proporcionada por essa campanha, inclusive graças à força que ela teve nas redes sociais: recebi e fiz elogios sinceros em brincadeiras simples, descobri qualidades que outras pessoas percebem em mim, vi pessoas que jamais imaginara apoiando a campanha e preocupando-se com essas questões. Tudo foi um incentivo a mais para que eu finalmente escrevesse sobre a minha experiência como suicida.

Lidando diariamente com minhas próprias e intensas questões psicológicas, um movimento tão capaz de aproximar pessoas e emocioná-las é incrível. Afinal de contas, muitas pessoas não tinham ideia da força de suas palavras ao dizer publicamente que a vida vale a pena e colocando-se a disposição para conversar e não julgar. Isso é muito bonito e faz efeito sim. Para nós que precisamos ouvir, saber e lembrar disso e vencer cada dia, pequenas coisas tornam-se motivos para continuar lutando.

O apoio – mesmo de pessoas distantes, desconhecidos, profissionais – faz diferença.

Cogitar o suicídio como única forma de superar obstáculos, lidar com as dificuldades é como cair no meio da rua: todo o movimento em volta continua, mas você permanece caída e a situação só piora. O que para os outros são segundos, instantes, para você torna-se gigantesco e sem fim. Aparecem pessoas para rir de você; alguns amigos não sabem lidar ou não querem e vão embora e você não vê mais solução, a vontade é abrir um buraco no chão e entrar lá. Daí surge em meio ao mal alguém, uma pessoa que se importa de verdade e quer te ajudar a levantar. Suas roupas estão rasgadas, você envergonhada e você quer sumir, mas boas pessoas se aproximam e te ajudam a levantar, lidar com a vergonha, com suas roupas rasgadas e aos poucos passar de novo naquele caminho onde caiu. Eles permanecem ao seu lado para te apoiar, enquanto você precisar. As vezes a simples presença deles é como ter muletas para caminhar, mas aos poucos você anda novamente e os laços de amizade, zelo, carinho, presença que se criam podem ajudar você a caminhar sozinha.

Eu usei tantas muletas, por tanto tempo! Eu tenho tantas pessoas assim comigo hoje!

E sinto-me grata por poder ser muleta para outra pessoa.

Se você apoiou a campanha com a hashtag #SetembroAmarelo, compartilhando conteúdo ou simplesmente curtindo: Obrigada! E tenho certeza que agradeço em nome de muitas pessoas que ainda não estão prontas, ou talvez nunca vão sentir-se a vontade para falar, mas pessoas que você ajudou de alguma maneira a passar por isso, a superar, encontrar motivos para continuar.

Falar é a melhor solução (?)

Falando nisso, vamos ao tema da campanha: falar.

É fácil falar/escrever sobre? Não exatamente. Para mim e para qualquer outra pessoa é difícil falar sobre. Contar suas fraquezas, mostrar seu lado mais sombrio nunca será simples, expor-se e tornar público o que não queríamos que fosse real não é fácil. Não espere que a pessoa “se abra” como alguém que precisa contar alguma coisa, mesmo que a pessoa queira falar, pode não conseguir: por não saber o que sente, por não se entender, por vergonha, pelo medo do julgamento etc.

 Presença. Essa seria a palavra que melhor resume a solução.

Mesmo que o outro não fale, seja presente.

Eu, falante e apaixonada por transformar ideias e sentimentos em palavras, muitas vezes não consegui estruturar uma frase ou manter um diálogo básico. De repente tornou-se complexo, beirava o impossível transformar meus próprios sentimentos, sensações e verdades em palavras ou argumentar sobre a minha condição. Assim, o que me salvou foi a simples presença ao meu lado.

Pessoas presentes que se importavam com minha frequência na terapia, o uso recomendado da medicação, viver além do meu quarto e ver o sol, não dormir 24 horas. A terapia, um ganho incomensurável para toda a minha vida, parecia o inferno quando eu precisava ir à um lugar falar sobre mim, quando eu não queria ser eu mesma, quando eu não queria nem existir. O silêncio pode dizer muito, e até ajudar, principalmente quando é o que a pessoa quer. Ter alguém comigo, alguém por mim, alguém para mim me ajudou a tornar reais, palpáveis, nomeáveis os motivos que existem para que a luta continue, para que eu não perca por W.O..

Falar é incrível, escrever é maravilhoso, para mim. E eu levei bastante tempo para chegar nessa fase, foi muita terapia e foram muitas tentativas de tornar público com um bom objetivo. Então, se você quer fazer algo a mais e tornar vidas melhores, seja presente. Esteja presente com aqueles que você ama, com quem você se importa.

Setembro acaba hoje, mas a vida não pode acabar hoje.

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