sobre morte

Instável.
24 horas por dia, 7 dias por semana.
Não há um só momento onde possamos respirar aliviados ‘ufa, ela agora tá bem’.
Nossa vida se tornou a vida dela, não haviam opções e talvez ela saiba e perceba isso porque as vezes é obvio demais até para nós, até para quem não conhece.
Ter um bebê. Imagine quantos cuidados e quanta dedicação.
Agora mude esse cenário de cuidados e dedicação para uma pessoa jovem, jovem mesmo na casa dos vinte que tentou suicídio atacando com uma faca de corte liso indicada para legumes a artéria femoral.
Hospital. Cirurgias. Transfusões. “É um milagre ela estar viva”, “não era a hora dela”. Psicoterapia. Mais remédios. Mais tarjas coloridas e negras. Dias desacordada.
Era realmente um milagre, para o mundo e para todos. Mais uma falha para ela, mais um motivo para olhar os pais com olhos mareados e dizer ‘desculpa’ pela milionésima vez desde que alguém disse para ela: “você está em depressão”.
Se tivessem dito que era câncer, tudo seria tão diferente.
Ela iria sofrer, porque tinha motivos e VONTADE de viver.
As pessoas se padeceriam porque, ‘coitada’ ela vai morrer, “ela só quis adiar todo aquele sofrimento”. É mais palpável, é mais compreensível.
Particularmente, poupe-me.
Ela está numa cama de hospital à mesma maneira, e seu quadro é instável.
Instável como seus pais divorciados que tentam guardar os problemas mal resolvidos nos bolsos quando dividem obrigadamente o mesmo espaço.
Instável como as lágrimas nos olhos do amado que se pergunta onde estava e porque não percebeu como ela estava, o que ela preparava, “por que não a salvou”.
Instável.
Assim eu estou agora.
Eu acordo todo dia instável e preciso de algum tempo para que meu eu diga como estamos, como eu estou.
Mas estamos seguindo, ainda que buscando um caminho. Estamos mantendo as facas guardadas na gaveta da cozinha.

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