um relato sobre a ansiedade.

sexta-feira, já passa da meia-noite. 00:37. então, já é sábado. tomei metade de um remédio para dormir, não me sinto bem: minhas costas doem, parecem pulsar. Não tenho posição na cama. meus joelhos também doem, minhas pernas parecem precisar andar. estou com calor, estou inquieta. minha letra ficou feia o dia todo.

não consigo dormir.

não quero ficar acordada.

isso só vai dificultar pra acordar amanhã. queria conseguir dormir. não quero ficar na cama. quero descansar, de verdade, mas nunca consigo. talvez devesse me organizar mais, ou estou obcecada com isso? não sei. tenho trabalho pra entregar amanhã. tenho trabalho pra fazer. meu coração acelerou junto com meus pensamentos. estou pensando em todas as atividades do semestre na faculdade. tô pensando em conchas. tô pensando em móveis. tô pensando em me cuidar e cozinhar. tô pensando nas últimas coisas que comprei, não deveria ter gasto aquele dinheiro.

esvaziou.

tenho que marcar horário no salão. seria bom ter um bullet journal?

acordei ele.

não queria incomodar. tô escrevendo no banheiro pra não acender a luz do quarto. será que isso tá fazendo mal pras minhas vistas? tô ficando velha. tem que colocar mais uma lâmpada aqui. tem pernilongo, vou pegar um SBP.

voltei.

troquei o refil da pastilha. tô ficando com medo. quando fico assim fico com medo de tudo, qualquer barulho, qualquer inseto. tudo me assusta.

mais uma noite de insônia.

o remédio tá me deixando confusa, são 00:52. amanhã não vou lembrar de todas essas coisas ou conseguir distingui-las, é sempre assim. o corpo todo coça. meu quarto é muito branco. meu corpo tá pesado. tô cansada de escrever. lembro de uma regra de português que não esqueço mais: entre mim e ele ou entre ele e eu. essas são as possíveis formas padrão. não lembro quando aprendi, mas ficou. tão forte quanto a regrinha da alfabetização que antes de p e b usamos m.

ouvi um barulho.

tento adivinhar. tô com medo. sombras também me dão medo. os pernilongos estão me incomodando. ouvi outro estalo. será que é a geladeira? meu peito tá pesado. tô ficando cansada. exausta.

vou deitar. meus braços estão pesados. odeio ficar assim. são 00:59.


Eu não conseguia dormir e pensei que talvez escrever me ajudasse a aliviar o turbilhão, a energia, tudo que sentia. Anotei tudo em que conseguia focar: pensamentos, sensações, sentimentos, até as horas.

Nunca consegui analisar ou lembrar detalhadamente dos meus momentos de ansiedade, quando acaba, tudo parece menor do que era e muita coisa se perde na memória, outras se confundem.

Relendo minhas anotações, decidi tornar isso um relato, e valorizo a importância de me observar, me conhecer, me compreender e me aceitar para poder me cuidar e melhorar para mim mesma e para a vida, para o mundo. Não quis seguir regras de português, não me importei com a forma nem com o conteúdo, apenas com o que realmente estava acontecendo.

Quando leio é mais fácil recordar. Os pensamentos eram tão desconexos na minha cabeça quanto surgem no texto. Aproximadamente meia hora de anotação – que só percebi ser tão pouco tempo enquanto transcrevia – me pareceu durar por horas, eu realmente senti que passei horas sem dormir. Nesses momentos, os pensamentos me vem a cabeça com uma intensidade incomparável, consigo sentir a ansiedade doendo no meu corpo e movimentando minha mente.

 

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