Uma mudança (continuação)

Leia a primeira parte dessa história aqui.

Dalila desembarcou, era uma rodoviária enorme, muitas pessoas, muitos ônibus, tudo ali era em excesso, e ninguém parecia notá-la, ela não chamava a atenção como em sua cidade, como nos lugares pelos quais passara. Com a mochila no ombro e a mão no jeans, ela caminhou ali, deslumbrada com as pessoas da cidade, da metrópole, de São Paulo. A diversidade, os estilos, as diferentes maneiras que ali pareciam todas em seu lugar, tomou um táxi, precisava ver mais daquilo.
No centro da cidade, encantada com as luzes, mesmo incomodada com as buzinas e o trânsito horrível, se apaixonou pelo coração do país, pelos prédios ao redor, que deixavam uma brecha pequena para o céu, que ela via completo, da janela do quarto, na casa dos pais. Do táxi, avistou um enorme bosque, um parque que a devolvia a sensação de estar em casa, perto do mato, do céu, das coisas simples e naturais, ao invés dos prédios e das luzes. Dalila sentia o coração mais forte, movimentando todo o corpo, sentia-se tomada de uma paixão louca, que não tinha um causador certo, um garoto, um dono. Tinha lugares, sensações, era causada por ela mesma. Dalila estava se encontrando, se descobrindo, descobrindo um mundo, o que existe nela pelo que há fora. Ela rodopiou, sentiu o vento levantar os cabelos, a cabeça perder os sentidos, o corpo cambalear, o ar entrando rápido demais nos pulmões, as estrelas iluminando-lhe os olhos, e ainda assim, não atraia olhares. Não tinha que se preocupar com ninguém, nada a não ser com ela. Uma nova Dalila, que era apenas a Dalila que sempre esteve ali, mas que nunca havia sido vista.
Agora ela estava ali, externada. Feliz, apaixonada e muito mais apaixonante, confiante, encantada e encantadora, perfeita. Ela era o que devia ter sido todo o tempo, demorou mas se encontrou e nada a mudaria, a não ser para melhor, ela estava segura. Dalila era do mundo, e o mundo, todo dela. Ela podia ir para todos os lados, deixar a cidade em chamas, ser incendiada. A ligação segura dela com todo o resto estaria sempre ali, salva.
Num começo de noite comum, na maior cidade do país, Dalila, a garota revolta do interior, se descobriu, se entendeu, se encontrou. Leu, finalmente, a mensagem nos próprios olhos, sentiu estar no mesmo ritmo do coração. De repente, Dalila estava em sintonia. Na mais perfeita, sintonia.

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